marcela levi

Katharina Koschorreck
The international artist database
Culturebase.net
Junho de 2008

Uma questão de percepção


A bailarina e coreógrafa Marcela Levi, nascida no Rio de Janeiro em 1973, fez seus estudos de dança contemporânea na escola de dança Angel Vianna em 1996. Durante oito anos foi um membro criador da companhia da ccoreógrafa brasileira Lia Rodrigues, antes de começar, em 2002, a desenvolver suas próprias performances experimentais que entrecruzam a dança e a arte visual. O que a levou a trabalhar com artistas visuais, fotógrafos e outros coreógrafos. Levi pretende utilizar seu corpo como material espacial e de trabalho, e seus trabalhos põem em questão a identidade (a maior parte do tempo feminina). Explora o corpo e seu papel na cultura e na ideologia e cria relações com as perspectivas dos espectadores. Assim, em suas performances, encontra espaço para transformação e múltiplos significados.


Seu primeiro trabalho solo, Imagem (2002), foi criado em conjunto com a fotógrafa Claudia Garcia e começou como um jogo. Marcela Levi entra em cena com uma blusa e um short azuis, em seguida os tira e tenta outras possibilidades. Às vezes seus shorts tornam-se sua blusa, e sua blusa cobre suas nádegas. Às vezes está inteiramente vestida, às vezes em parte, às vezes de forma alguma. Isso lhe permite, sem muitos esforços, criar imagens memoráveis sobre o gênero, a feminilidade, a identidade, a sexualidade e a beleza. Seu corpo é o meio e a mensagem. Os limites entre certas noções parecem borrados e outros mais firmes. O corpo da mulher é liberado dos ideais banais da indústria da moda e põe em causa de maneira lúdica as percepções dos espectadores.


Sua performance Massa de Sentidos, 2004, foi inspirada num trabalho feito por Marcel Duchamp no ano de 1951. Com a ajuda da massa empregada pelos dentistas para fazer dentes sintéticos, Duchamp fez um molde da sua mulher. Chamou a forma positiva de Object Dard. Através deste objecto, de acordo com Marcela Levi, Duchamp criou relações entre o interior e o exterior, o oco e o cheio, as mesmas qualidades que ela quis explorar em Massa de Sentidos. Em sua performance ela reflete sobre a feminilidade com a ajuda de atributos simbólicos como a massa de pão colorida de vermelho e as matrioshkas (um conjunto de bonecas russas feitas de madeira e encaixadas umas nas outras). Desta maneira, os atributos da mulher parecem, em vários aspectos, tornar-se uma parte integrante do corpo da mulher, que - no curso de uma performance reflexiva e tranquila - se torna simplesmente um objeto a mais. A ambiguidade do interior e do exterior aparece també na forma de apresentação: Um sistema de vídeo sobre a cena filma Levi durante a performance e projeta as imagens, de uma perspectiva em olho de pássaro, na parede. Os espectadores assim são confrontados com a ambivalência entre interior e exterior. O ecrã mostra o visível e externo, e o corpo no espaço limitado mostra o emotivo e interno. Interior e exterior, corpo e alma, são assim são mostrados como entrelaçados, multicamadas e até certo ponto intercambiáveis.


Em 2007, Levi apresentou In-organic, que tinha desenvolvido como artista em residência nos Récollets em Paris. Nesta peça, um colar de pérolas de 25 metros, uma cabeça de touro empalhada, grampos de cabelo, um vestido e uma luz traseira de bicicleta foram introduzidos em relação com seu corpo. Em cena, ela mostrou ironicamente a guerra dos sexos. A performance se refere à sociedade brasileira com um ritual no qual vaqueiros laçam as mulheres de que gostam: "Ele gosta, ela gosta, e é assim". A performance mostra um corpo capturado por rituais sociais e embalsamado nas convenções: "In-organic oferece reflexões, investigação e experiências práticas, começando por um corpo (de uma mulher) que se dá conta de seu peso, ou antes de seu lugar ou não-lugar ou seu lugar de passagem... Utilizo coisas (materiais) como razões para o movimento. O que procuro nesse encontro é um corpo (a mulher) e um objeto, ou antes, um subjeto (palavra que evoca um jogo de palavras)... O subjeto pode ser uma propriedade pessoal quotidiana deslocada, desfuncionalizada e subjetivada. Procuro as superposições, as camadas e os deslizamentos das associações que forjam outros significados (direções e significações)." (Citado de M. Levi, fonte: www.international-recollets-paris.org).