marcela levi

Rodrigo Brito*
Nova Friburgo
Dezembro 2012

UMA TENTATIVA VÃ DE CAPTURAR O INCOGNOSCÍVEL
Ou: resenha de “Natureza Monstruosa”


Se pudesse definir com uma única palavra “Natureza Monstruosa”, diria somente: “Desconcertante!”, e me calaria.


Contudo, assumir o desconcerto está longe de satisfazer, porque o objeto que me causou tal sensação, aquela performance, de fato é tão imensamente fugidio e anômalo que, na verdade, mais do que desconcertar causa vertigem. E, na ânsia por alcançar um ponto onde me apoiar, lanço mão de todo tipo de artifício interpretativo, usando minhas categorias mentais e conceitos na tentativa de, assemelhando o objeto a mim (e me assemelhando ao objeto, ou seja, tornando minha própria natureza monstruosa), alcançar um ponto de sustentação e reduzir o incômodo.


Claro, se fosse performer ou coreógrafo talvez fosse capaz de compreender o objeto por um prisma mais técnico, ou se fosse coreógrafo, produtor... Mas, tentarei compreender essa “Natureza Monstruosa” (que pulsa) com olhar filosófico, não ousarei fazer uma análise excessivamente descritiva, como um taxidermista, mas tão-só expressar o que para mim faz do espetáculo algo desconcertante e vertiginoso, nos âmbitos das seguintes dicotomias: micro-macro (ou, a questão das escalas: de tempo e espaço); orgânico-inorgânico; repulsão-atração.


Assim, a primeira afecção de estranheza me foi causada pelo cenário, de modo que, sem respostas, até hoje me pergunto: “Aquela “Natureza” é natural?”. Se sim, “É natural de onde?”. Talvez de um planeta semelhante a Terra. Agora, se da Terra, que lugar é inteiramente peludo?


Carpete = o quarto da minha avó = tapete = a sala da minha mãe = a loja de decoração = a pele rara do cadáver de um animal onde as crianças brincam, mas aquele pelo ocupava tudo!...


E, sentado à diagonal de um palco italiano, vi inicialmente um cavalgar repetitivo-circular, restrito a um espaço muito pequeno do cenário, a amazona cavalga a si própria, é montaria e cavaleira que, ao término de cada ciclo extenuante, desaparece atrás de cortinas, um minimalismo que ocupou um bom tempo do total da performance, extenuando e, principalmente, angustiando também os espectadores, que, a cada novo ciclo iniciado, predispunham-se cada vez mais ao estranhamento e à vertigem propositais e minuciosamente provocados. Duas outras coisas, cavalgaduras/cavaleiros, surgiram depois: uma cavalgou (ou foi cavalgada) velozmente e, sem sair do lugar, pareceu decolar verticalmente, ali repousaram todas esperanças de fuga da agonia sufocante, quis decolar com aquilo, até que grunhiu e talvez a ignição tivesse se consumado, ou suas engrenagens tenham emperrado, ou a possessão tenha se manifestado, de toda forma, a queda é iminente e inescapável. A outra coisa cavalgou (ou foi cavalgada) mais amplamente no palco, com uma expressão que misturava indiferença e opressão e um esporádico riso sardônico acompanhado por um urro paquidérmico que, se era de elefante ou rinoceronte, não sei, mas era grandioso e não poderia caber num carpete, nem num tapete, tampouco na pele de um animal menor. Por outro lado, considerando que pelos são, necessariamente, apêndices filamentosos de alguma pele, como a minha, talvez aquele urro não pertencesse a um macro-bicho, mas a um micro, e, então, toda performance fosse a representação das formas de vida ululantes e diminutas em uma placa de Petri.


Vidas efêmeras...todas! Não obstante, a efemeridade não pode durar tantas eras geológicas, da Proterozóica aos dias de pós-hoje, mas aquelas coisas lá que a tudo resistiram — vulcões, tectonismo, cometas e, principalmente, sobreviveram a si próprias e as constantes ameaças de fagocitose e pinocitose — não podem ser orgânicas, antes, são dispositivos auto-replicantes, peças, micro-engrenagens que compõem um macro-mecanismo, em uma dança nanotecnológica, de um modo tão imbricado e canibal que suas interações mecânico-gelatinosas se confundem com tremores e titubeios da carne flácida, nesse esforço sem sentido chamado existência.


E, o que somos, então? Naturezas monstruosas, antinaturais, atemporais, execráveis, buscando significado onde não há, jogando os tentáculos horrendos de nossa racionalidade ávida sobre todo o imperscrutável, gemendo e urrando entre os pelos de nossos corpos, cavalgando freneticamente nossas próprias individualidades, presos ao hardware biológico dos esqueletos, sem jamais podermos escapar das ilusões, das interpretações e do turbilhão de desconcertantes e vertiginosas sensações que nos cavalgam e possuem. Monstruoso sou eu, execrável, em meu pequeno inferno e pequeno paraíso, tentando extrair significados da ótima performance de Marcela Levi, Lucía Russo, Clarissa Rêgo, João Lima e Laura Samy.




* Doutorando em Filosofia, Professor da UFF e Seeduc-RJ.