marcela levi

Roberto Pereira
Especial para o JB
Rio de Janeiro
junho de 2007

A poética sem concessões de Marcela Levi


Nenhuma concessão a ser feita e mesmo assim a poesia ali está, presente quase como matéria bruta, pronta para ser destilada. É assim que Marcela Levi faz a trama de sua última peça solo, que compõe uma trilogia e leva o nome de in-organic. O espetáculo estreou no Espaço Sesc na última quinta-feira e continua em cartaz no próximo fim de semana.


O que salta aos olhos, logo de cara, é que não se trata apenas de uma bailarina, mas de uma criadora que cria não para si, mas em si. Que não usa seu corpo para sua dança, mas seu corpo é sua dança, absolutamente inundado de uma presença desconcertante.


Cada objeto em cena, desde um enorme colar de pérolas até uma cabeça empalhada de boi, compartilha com sua habilidade de construir cenicamente a idéia como condição, nunca como complemento. É isso que faz in-organic ser tão orgânico para alcançar a dose certa de ironia, de uma justa e fina fisgada na percepção de quem a assiste.


Marcela carrega em seu processo de criação o DNA da coreógrafa Lia Rodrigues, com quem trabalhou durante oito anos. A mesma perspicácia em perceber como algumas informações no mundo revelam sua crueldade, ainda que tacitamente aceitas socialmente, alinhava suas cenas numa crítica fina e aguda. Cenas tão áridas, tão secas e ao mesmo tempo tão cheias de poesia, cortantes em sua justeza, exatas em seu timming. Quase uma poesia de João Cabral de Melo Neto.


Um dos pontos de partida é uma premiada foto de um jornalista em que uma mãe aparece sentada numa calçada velando o corpo do filho, assassinado no Centro da cidade. O espaço que há entre a dor estampada na imagem e as declarações de satisfação do fotógrafo por ter ganho o prêmio é o espaço em que a idéia se constrói, ou seja, um espaço exíguo e desconfortável.


A dança de Marcela Levi é assim: não fazendo concessão, aumenta a nossa chance, como público, de entender que a dança, há muito tempo, deixou de ser como tanto querem os saudosos das harmonias e dos belos movimentos na música. Sua dança, estando no mundo, carrega consigo a imperatividade desse mesmo mundo, em que harmonias e movimentos também se dão pelos seus avessos.