marcela levi

Laura Erber
Rio de Janeiro
Março 2015



“A gente não está cavalgando o próprio corpo”
sobre Mordedores de Marcela Levi e Lucía Russo


Em 2014 Marcela Levi e Lucia Russo deram início a um processo de longa duração que demandava a participação colaborativa de jovens performers numa pesquisa sobre a violência, entendida e experimentada para além de suas conotações imediatas de aniquilamento, morte e destruição. Contrariando o imaginário (e as políticas culturais e sociais) que visam pacificar a violência por meio de uma dopagem, de um esvaziamento de energia – também eles, evidentemente, violentos – realizados em nome de harmonia edificante, Marcela Levi e Lucia Russo incorporam a energia da violência como disparadora de uma espiral de forças em tensão. Ao corpo contemporâneo blindado e asséptico, na desesperada busca de uma fortaleza auto-protetora envolvido em fantasias cosméticas contrapõe-se um corpo permeável, mais elástico, que pode romper, que suja e se suja, que pensa e é pensado, morde e é mordido.


Tal tomada de posição permitiu às diretoras e aos performers articularem os corpos de modo impiedoso e ao mesmo tempo, com uma precisão delicada, resultante de um equilíbrio frágil de relações e afetos em circulação.


Não se trata de um retorno à violência mítica, que purifica e redime, mas de tomar a violência como algo que nos constitui, e extrair dela sua dimensão criadora, anti-determinista, suja. Não mais buscar as causas ou a compreensão, mas incorporar, em outro contexto – o dos corpos em contato - os efeitos, os gestos e ritmos encetados por essa força. O que normalmente é temido e evitado, pressupondo sempre uma exterioridade da violência em relação ao corpo ou à vida, passa a funcionar como energia vital. Talvez também por isso a violência que aí se articula arraste consigo a sombra do erotismo, a mordeção entre os performers sugere uma corrente erótica perpassando os corpos.


A dança do treme – que mimetiza o tremor do corpo quando o atirador dispara a metralhadora – a relação entre a fome e o riso das hienas guiaram as pesquisas e motivaram experimentos. Dos corpos em cena emergem, como de uma gruta esquecida, sonoridades improváveis que reverberam no espectador. Mais do que visual – e nesse sentido, o trabalho difere dos dois últimos projetos realizados por Levi e Russo – Mordedores é extremamente epidérmico, tátil e vibratório. Sua plasticidade surge mais na vermelhidão dos corpos suados e extenuados do que do desenho coreográfico ou espacial.



A maior parte dos dançarinos quer ser cavaleiro, isso é um problema para o corpo que nosso trabalho demanda. A gente não está cavalgando o próprio corpo. A gente é cavalo...
Mais interessantes são os corpos (re)movidos por invisibilidades, a nossa dança convoca esses corpos aborrecidos de sua propria imagem e contorno… Há algo disso na ficcão científica, nos desenhos animados, em certos sonhos. (...)

(Levi e Russo)



Para nós o projeto faz parte da procura de uma dança de corpos atrelados ao fora, corpos divertidos (vertido em dois). Aí é que nos toca uma Bjork cantando “violently happy”; o eu fraturado de um Rimbaud ou o Nijinsky quando escreve em seu diário: “Nós somos ritmos. Os sentidos se situam sempre sob a fronteira, face a face com a onda proliferante da diferença. Não há identidades, apenas ritmos”
(Levi e Russo)



Por outro lado, o projeto assume o risco do interminável e do inacabado quando as diretoras impedem que os performers, após meses de ensaio e uma temporada em cartaz, encontrem o conforto e a estabilidade da forma. Após terem atingido certa dinâmica plástica e a uma estrutura rítmica, Levi e Russo passaram a propor workshops em que outros performers integram momentaneamente a formação original que atua em Mordedores. Assim, corpos estranhos ao projeto e ao seu modus operandi passam a contamina-lo reabrindo a pesquisa do grupo em torno de um novo ritmo plástico.


No jogo incessante de morder e ser mordido, as mandíbulas se equilibram entre o metafórico e o literal, evitando tanto o espetaculo obceno da ferida exposta, do arrancar pedaços, quanto o gesto falso de uma mordida que não afeta intensamente o corpo alheio. Desse modo expõem a fragilidade da forma, fazendo da degradação sua vitalidade, a vitalidade do contato sujo com outros corpos, suados, vermelhos.