marcela levi

Lilo Weber
Neue Zürcher Zeitung
Zurique
agosto 2010


Guerra de cenouras das lebres

Em redor do buraco tudo é beira de Marcela Levi


Dança do Brazil – O Zürcher Theaterspektakel continua rastreando também a cena teatral na América do Sul. Uma das descobertas mais instigantes parece ser este ano Marcela Levi.



Era um tempo em que havia guerra. E era tão terrível que até hoje se fala dela. Marcela Levi rasteja pelo palco como se ele fosse uma trincheira e então lê num livro sobre uma luta brutal entre os pássaros em que jorrava sangue do céu.



Os Sons da Guerra



Em seguida entra Flávia Meireles e faz a guerra soar. Do corpo delicado da bailarina saem rajadas de metralhadora, sirenes, mísseis. Ela se contorce, estala, grita, chacoalha. E deixa para trás, casualmente retorcida no chão, a cartucheira feita de cenouras.


Duas mulheres jogam guerra. E fazem isto no duo em redor do buraco tudo é beira, da bailarina e coreógrafa Marcela Levi, sem realmente se comunicarem entre si, mas com pleno uso de seus corpos e de 200 cenouras, que no final estão despedaçadas e espalhadas pelo campo de batalha. É lógico que uma das duas, Marcela Levi, várias vezes como mulher em pele de lebre, quer dizer: com máscara de coelho, libertinagem no palco. Afinal nesta guerra também há uma luta de recursos. Mas as cenouras são ao mesmo tempo objetos de desejo e meios de apropriação: pistolas, cinturões de bombas, granadas, facas, etc. Fazem lembrar, é claro, um fato anatômico que as duas mulheres não possuem, mas ressoa como uma alusão. São os homens que comandam a guerra aqui? Coelhinhos assustados simplesmente?


Isso seria simples demais para ser de Marcela Levi. A artista, nascida em 1973 no Rio de Janeiro opera em níveis diferentes, como conteúdo e forma. E vem trabalhando há vários anos numa linguagem corporal que perturba a hierarquia entre corpo e objeto. Assim, as cenouras também se tornam, em em redor do buraco tudo é beira, instrumentos e expressão direta dos corpos. Marcela Levi tem trabalhado várias vezes com fotógrafos – e, para essa peça, com a escritora e artista visual brasileira Laura Erber.



Normalização da violência



Ela tematiza não apenas a violência, mas a normalização cotidiana da violência, e faz isso com flashes de imagens, como são os quadrinhos e os filmes de animação. Volta e meia ela para, interrompe o sentido da peça, e em redor do buraco tudo é beira se apresenta como um quadro cujo motivo é construído a partir do encaixe de peças diferentes. O duo lembra ao mesmo tempo a composição de uma peça musical, com diferentes vozes, temas e variações, composta apenas por pequenas partes que giram sempre em torno dos mesmos temas: violência, guerra, fanatismo, auto-anulação. Um trabalho instigante.