marcela levi

Adriana Pavlova
O Globo - Segundo Caderno
Rio de Janeiro
28 de março de 2015


CORPOS QUE (BEM) AFETAM


Numa sociedade na qual o culto ao corpo perfeito é uma obsessão, “Mordedores”, da dupla de artistas Marcela Levi e Lucía Russo, com colaboração dramatúrgica de Laura Erber, é um espetáculo que pode incomodar plateias. E é justamente essa dança feita com corpos esquisitos, com seres estranhos, meio animais, a força do novo trabalho da dupla, que estreou recentemente no Festival Dois Pontos, volta ao cartaz neste fim de semana para quatro apresentações no Centro Coreográfico do Rio e segue dia 18 de abril para o Centro de Artes da Maré.



Ao entrar na sala, o público é convidado a tomar cadeiras arrumadas em retângulo. Sentada ali, uma dançarina começa a apresentação. Do começo ao fim, as cenas acontecem muito próximas de quem as está assistindo. A luz deixa à vista tudo e todos, sem qualquer distinção. Olhar para quem está ao seu lado, artista ou plateia, e observar a reação do público fazem parte do jogo. Primeiro, uma brincadeira com mastigação, um barulho engraçado, algo parecido com uma superpipoca estourando na boca da intérprete. Um humor bem costurado, que ao longo do espetáculo surge em doses certeiras.



Depois de afiar as bocas, entram em ação os mordedores propriamente ditos. Os dançarinos mordem uns aos outros incansavelmente, em sequências que mesclam uma série de sensações. Em duos, trios, quartetos, quintetos, ora eles parecem se machucar, ora se amar, se odiar ou se divertir. O ato de morder pode ser erótico, selvagem. Os intérpretes parecem cavalos, cachorros e hienas.



Numa leitura mais aprofundada, “Mordedores” apresenta ideias e conceitos de filósofos contemporâneos que estudaram ou estudam o corpo no nosso tempo, pensadores como os franceses Michel Foucault e Gilles Deleuze ou o húngaro radicado no Brasil Peter Pál Pelbart. É Pelbart quem afirma que o corpo no mundo contemporâneo é construído para ser perfeito, atlético, tecnológico, hedonista. Um corpo blindado, segundo o escritor Juliano Pessanha, citado por Pelbart em seus textos. Os dançarinos de “Mordedores” são donos de corpos “desblindados”, com uma incrível capacidade de afetar e de ser afetados. A dica é justamente deixar-se afetar pela potência e entrega de Daniel Passi, Gabriela Cordovez, Ícaro Gaya, João Victor Cavalcante, Lucía Russo, Marilena Manuel Alberto e Tony Hewerton.