marcela levi

Barbara Raubert
Revista SusyQ
SET-OUT 08
Madrid

Hogaza

Oferecemos uma reflexão sobre a obra desta criadora brasileira que começa a ascender na cena alternativa internacional.


Seu corpo é un objeto interveniente onde pura beleza e fina brutalidade dão-se as mãos em um poema visual surpreendente. Fruto de uma mente que questiona o status quo das coisas enquanto se mascara numa atitude facial absolutamente neutra, a coreógrafa brasileira consegue outorgar um maior protagonismo a sua ação despersonalizada. Tão contundente assim é Marcela Levi em suas "obras cênicas", embora quando fale fora delas nos pareça pequena e próxima. Mas na cena, é outra coisa. No cubo onde tudo é possível, a força de sua vontade de expressar-se não pode ser contida nem formatada por outra peça de roupa que não seja sua própria pele, e assim, toda desnuda, levanta-se como terrorista do presente a partir da afirmação inexorável da temporalidade do corpo humano, seu campo de batalha, que ela apresenta sem pudor ou modéstia. Sua carreira em ascensão, com as peças Massa de Sentidos e In-organic vai conquistando terreno. Depois de sua passagem pelo festival Complicitats, de Barcelona, o ciclo Solos para un espacio blanco, na Laboral Escena de Gijón, em junho passado e sua recente participação no festival Cocoa, de Buenos Aires, seu nome se faz cada vez mais familiar na cena alternativa internacional.


A meio caminho entre a dança - o corpo como arma e ao mesmo tempo campo de acão -, o teatro - com narrativas textuais e formais - e a escultura - a partir da utilização de elementos externos que aplica a seu corpo para transformá-lo e recriá-lo -, essas "peças cênicas", que querem dirigir nosso olhar para as bordas situadas exatamente entre o interior e o exterior das coisas, os corpos e os fatos, como nas bonecas russas de uma de suas peças, têm muitos referentes, embora sejam totalmente únicas. Em In-organic, oito grampos de cabelo penetram em sua boca desde os lábios fechados até o exterior, criando uma espécie de mordaça metálica que impede a fala e até o grito, enquanto um colar de pérolas, de 25 metros de comprimento, dá voltas a seu redor até envolver e cingir seu corpo desnudo desde o baixo ventre até o peito, transformando-se num vestido-jaula tão precioso quanto cruel. Assim como em Massa de sentidos, esta coreógrafa de fina ferocidade mantém um mesmo tipo de relação des-situada com os objetos que fazem parte de seus adereços, retomando a ideia de Duchamp do objet trouvé como um experimento de deslocamento e sua consequente reconstrução do sentido, o que permite obter perspectivas novas para fatos antigos.


O deslocamento gerado por Levi força um estranhamento em relação a tudo que nos rodeia ao mesmo tempo em que, seguindo os mesmos esquemas de abstração, põe em relevo os paralelismos que existem entre fatos aparentemente distantes, como a masa de pão e o corpo humano, em Massa de sentidos, ou a morte e a festa em In-organic, duas das três peças que fazem parte de sua trilogia sobre o corpo externo e e corpo interno, ainda por finalizar.