marcela levi
Renan Marcondes
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Abril de 2026
Simulador de vida
Para “I Míssil”
Durante o blackout que antecede o início da peça, uma pessoa mantém o celular aceso. Alguém reclama em bom tom, argumentando que a luz a impediria de “entrar no clima” da obra. A anedota poderia ser apenas mais uma entre tantas, em tempos de plateias cada vez mais adictas aos seus dispositivos. No entanto, aqui ela ganha outra camada: após o blecaute, a luz de serviço se acende novamente e revela três corpos em cena, balançando de um lado para o outro como os GIFs que aquela mesma pessoa enviava, com a tela do celular iluminando a escuridão pré-espetáculo.
I míssil, nova criação da Improvável Produções, dá continuidade à pesquisa da dupla de diretoras, que não se volta apenas para estados de corpo, mas sobretudo para lógicas de esgarçamento, sincronicidade e tensionamento do tempo, colocando o público diante de temporalidades muito distintas das espetaculares. O trio em cena move-se como avatares virtuais, evocando gestos de jogos clássicos dos anos 1990, como The Sims ou Grand Thef Auto: gestualidades claras, repetitivas, quase didáticas, que indicam ações e estados de cada corpo que precisam ser prontamente codificados por quem vê.
Essas figuras interagem entre si sem jamais se tocarem, permitindo que o espectador construa narrativas a partir de cadeias gestuais que parecem migrar de um corpo a outro. Progressivamente, mãos e expressões faciais incorporam também o repertório dos emojis e emoticons - dispositivos que, no cotidiano digital, modulam afetos e estabilizam sentidos em mensagens potencialmente ambíguas.
Apesar de estarem sobre o palco, essas figuras parecem deslocadas do teatro. Um piano ao fundo toca sozinho: suas teclas se movem de forma quase imperceptível, exigindo um olhar atento para perceber que a música, embora ao vivo, não é produzida por um corpo visível. A rotunda, em vez de ocupar o fundo, encontra-se suspensa lateralmente, enquanto luzes coloridas se insinuam por trás dela, expondo o dispositivo cênico de maneira quase obscena.
Aos poucos, os três corpos atravessam diferentes situações como lutas e corridas até desembocar em uma suposta longa festa. A transposição do universo virtual para o corpo assume então a forma de uma mímica explícita: os gestos, e não mais os polígonos, passam a representar diretamente ações reconhecíveis. Dedilhar um piano torna-se mover os dedos com os braços dobrados à frente do corpo; a ânsia de vômito, inclinar o tronco com a cabeça em direção ao chão.
Essa legibilidade festiva contrasta com uma caixa de som suspensa sobre o público, que emite ruídos de bombas e guerra enquanto oscila sobre suas cabeças. Diferentemente de um uso anterior desse recurso pela dupla, no palco do Theatro Municipal de São Paulo, aqui o efeito é mais sutil: assusta apenas parte da plateia diretamente sob o dispositivo, passando quase despercebido por aqueles que permanecem imersos na festa dos emojis.
O procedimento recorrente do grupo - expor códigos altamente legíveis fora de uma lógica de produção de efeito - encontra aqui um impasse específico. Ao contrário de repertórios da dança e da cultura popular mobilizados em trabalhos anteriores, os avatares de GIFs, memes, Italian brainrots e NPCs já carregam em si uma suspensão própria: são, por definição, formas condensadas de eficácia comunicativa.
Mas carregam consigo certa neutralidade, quase uma anti-autoria, que permite certo descontrole e torções de seus usos (basta pensar no que vira um emoji de calor ou tristeza em aplicativos de relacionamento ou em quantos Sims foram afogados em piscinas sem escadas). Ao serem apropriados em cena, esses códigos e formas de corpo por vezes perdem justamente tal ambiguidade, tornando-se ainda mais miméticos que suas versões de pixel e fazendo da obra, de alguma forma, mais citacional que as anteriores.
Uma possível resposta a esse impasse emerge no bloco final. Nele, a cena se torna uma espécie de arte desesperada por permanecer viva, ainda que presa a um semelhante loop - o de seu próprio fazer. Truques de mágica, malabares, música ao vivo, corpos sobre pianos e ediths piafs compõem um amálgama de clichês artísticos. Como se também o artista tivesse se tornado um NPC: um personagem não jogável, que apenas repete ações programadas em resposta a estímulos externos, sem agência real.