marcela levi

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I Míssil
Trio

“Onde quer que eu vá / a língua me precede / como um amante preparando o caminho / como um império ao qual não posso escapar.” Diane di Prima. Não apenas a língua, também os gestos nos precedem. Mal começa nossa socialização, já somos inseridos em seus sistema de favores e mercês, de toma lá, dá cá. Nascemos, como escreveu Adrienne Rich, “no meio do movimento difícil, / o que já soa quando nascemos” — dentro de códigos que carregam ao mesmo tempo o desejo de contato e a violência de suas formas, o sonho de uma linguagem comum e a impossibilidade de que ela chegue ao outro sem ter sido primeiro disparada por alguém, de algum lugar, em nome de algo. O chapéu tirado em sinal de respeito já estava lá, o cumprimento de mãos já estava lá, o adeus com a mão estendida, o coração desenhado no tronco de uma árvore, já estava lá. É dentro dessa condição — e não apesar dela — que I Míssil, nova criação da Improvável Produções, vai nos conduzir.

Um projeto-projétil: ressoando o jogo de palavras proposto pela artista Linn da Quebrada, o título I Míssil sobrepõe a expressão inglesa I miss you — sinto sua falta — à imagem de um míssil. Saudade e violência na mesma mensagem. Esse paradoxo não é trocadilho: é a estrutura do trabalho. E o projétil, feito uma carta de amor, têm também um remetente e um destinatário.

Desde pelo menos o século V a.C., soldados gregos e romanos gravavam mensagens em balas de funda antes de arremessá-las - insultos sarcásticos, invocações de vitória, dedicatórias obscenas. Uma bala do século II a.C. no Levante meridional traz a palavra MATHOY — “aprende”, em grego, no imperativo: aprende a lição. Outra, lançada contra inimigos no Mediterrâneo: “pega!”. Em agosto de 1945, soldados e técnicos do Projeto Manhattan cobriram o nariz, os lados e a cauda da bomba Fat Man — a arma que destruiria Nagasaki — com assinaturas, cidades natais e pequenas mensagens manuscritas. Um soldado de Chicago escreveu: Here’s to you! Em 2006, cidadãos de Kiryat Shmona, que haviam passado dias em abrigos anti-aéreos, saíram para o ar livre e escreveram mensagens e desenharam bandeirinhas nos obuses de artilharia prestes a ser disparados contra o Líbano.

I Míssil se situa precisamente nessa zona de endereçamento e de atrito. Em cena, três performers — Clara Alves, Lucas Fonseca e Martim Gueller — habitam um espaço que é simultaneamente arquivo e campo minado. Os gestos têm a legibilidade imediata das convenções: tirar o chapéu, acenar com a palma da mão aberta, inclinar o torso em reconhecimento de outro. Mas esses gestos chegam ao presente com a estranheza do anacrônico, revelando, na intensidade física proposta pelo trabalho, formas de sociabilidade que a contemporaneidade foi tornando obsoletas, substituídas por outros repertórios, não menos codificados.

O processo criativo levou as coreógrafas ao encontro dos NPCs — os non-playable characters dos videogames —, aqueles que flutuam em modo de espera, sem gravidade, nem agência, e frequentemente sem sombra, presos a roteiros preestabelecidos, e que deixam essa latência apenas quando alguém interage com eles ou envia tokens digitais — rosas, animais, corações —, incorporando então gestos-emojis que irrompem da flutuação. É a mesma lógica: o gesto de tirar o chapéu já não tem quem o anime por dentro; o NPC flutua roboticamente à espera de gatilho externo. Em ambos, o gesto precede o sujeito — ou o substitui. O trabalho de articulação entre gamificação e corpo dos performers é um dos elementos hipnóticos do espetáculo e nos convida a participar dessa nova dança de corpos-imagens.

Os três corpos em cena praticamente não se tocam. Inicialmente parecem habitar uma espécie de não-relação relacional: presentes no mesmo espaço, executando gestos que são, em princípio, gestos de contato e comunicação, mas sem que um chegue ao corpo do outro como chegaria numa interação efetiva. Esses corpos talvez demonstrem ali a condição de muitas das nossas trocas contemporâneas: presença sem contato, comunicação sem toque, relação mediada por protocolos que mantêm os corpos e afetos a salvo das idiossincrasias e singularidades mais radicais.

O suor é onde a peça trabalha um contraste importante. Nos corpos de Clara Alves, Lucas Fonseca e Martim Gueller, o suor e a baba não são subproduto do esforço, são quase um quarto corpo em cena, aquilo que em sua fluidez e informidade não pode caber num emoji.

Uma das referências declaradas do processo criativo é o ensaio de Ursula K. Le Guin “A teoria da bolsa de ficção”, em que ela propõe a garrafa — o recipiente, aquilo que contém, que carrega, que preserva — como alternativa ao herói-projétil que domina a narrativa ocidental. Para Le Guin, a história da humanidade não começou com a lança: começou com a cesta, o saco, o lugar onde se guarda o que é precioso para ser levado adiante. A narrativa dominante oblitera esse objeto, preferiu o arco tenso, o disparo viril. É essa tensão — entre a garrafa e o míssil da saudade, entre o que contém e o que explode — que I Míssil recusa resolver. O trabalho é ao mesmo tempo as duas coisas: lança-se como disparo e contém, na sua trama gestual flutuante, uma multiplicidade de referências, afetos, questões sem saída única.

O sonho de Rich de uma lingua comum não se realiza, seria desonesto dizer que se realiza. Mas a peça o habita: instala-se na zona de atrito entre o que as convenções prescrevem desde antes de nossa chegada e o que os corpos, em sua irredutível presença, insistem em transbordar.

Laura Erber
Março de 2026



Concepção e direção: Marcela Levi & Lucía Russo
Performance e cocriação: Clara Alves, Lucas Fonseca e Martim Gueller
Assistência: Lucas Fonseca
Desenho de luz e direção técnica: Laura Salerno
Desenho de som: Levi, Russo e Gueller
Sonorização: Eduardo Joly e Felipe Arantes
Cenografia: Camila Schmidt
Iluminador assistente: Léo Sousa e Andressa Pacheco
Cenotecnia: Paulo Miguel de Souza Filho
Assistência técnica: Matias Arce
Assistência de produção: Morgana Olívia Manfrin
Apoio: Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro / Secretaria Municipal de Cultura
Produção e realização artística: Improvável Produções


A peça de dança I Míssil, nova criação da Improvável Produções, estreou em abril de 2026, em São Paulo, no Sesc Pinheiros.